sábado, fevereiro 21, 2026
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Trabalho infantil: a busca pelo sonho e o pesadelo da ‘cidade grande’

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Parece história de novela mexicana ou o famoso conto sobre a “Cinderela”, mas na verdade é o choque da realidade das crianças e adolescentes do interior do Amazonas, que têm a “cidade grande” como um sonho.

No interior do Amazonas, é comum ouvir a história de uma criança que foi adotada por uma família da cidade grande, para estudar e realizar seus sonhos.

As famílias deixam suas crianças com alguém que diz adotar, para oferecer um futuro melhor, porém todo discurso, passa de uma ilusão. Tanto à criança, quanto aos parentes, então, o sonho se torna um pesadelo.

Quantas crianças e adolescentes passaram por isso no Amazonas? Muitos. Porém, com medo, ficaram calados, deixando ser aproveitados por meio dos seus esforços físicos e mentais. 

“Um futuro melhor”

Uma mulher, que não quis se identificar, relata que com 14 anos trabalhou na casa de uma senhora no município de Eirunepé (a 1.159 quilômetros de Manaus), como babá. A senhora era da capital amazonense, e pediu à mãe da mulher (adolescente na época)  para levá-la à Manaus, para ter um futuro melhor.

“Eu trabalhava na casa da mulher no interior, lá ela me tratava bem. Ela resolveu voltar para Manaus, e eu tive que vir com ela. Minha mãe não queria deixar, mas a gente adolescente, quer conhecer. Então viajei com a senhora. Mas, quando chegamos foi completamente diferente”, relembrou o momento.

A mulher relata que após cinco meses em Manaus, a dona sofreu um acidente de carro.  

“Ela sofreu um acidente, não resistiu e deixou as filhas e o marido. Aí começou o tormento na minha vida, como eu não tinha família aqui (Manaus), o marido da dona saia e me deixava presa em casa, tipo no cativeiro”, relatou.

Ela destaca que de babá, passou a realizar os trabalhos domésticos, a cozinhar, lavar as roupas, passar e cuidar das duas filhas da senhora, uma de cinco e outra de sete anos.

“Tinha que trabalhar, em troca de um prato de comida”, destacou a mulher.

Sonho 

De acordo com a mulher, as pessoas que moram no interior têm o sonho de ir para cidade grande, para conquistar e realizar projetos de vida, tem o desejo de trabalhar e estudar.

“A gente que mora no interior, vem para cidade grande pensando ‘vou estudar, trabalhar e ajudar a minha família’, os nossos parentes que ficaram na nossa cidade”, disse.

Resgate

A mulher disse que a situação somente mudou, quando conseguiu falar com o tio, que a resgatou do lugar. 

“Consegui falar com um tio meu. Ele veio para Manaus, me tirar de lá. Graças a Deus minha vida mudou, muito. E sou grata ao meu tio por tudo.

Ela destaca que tinha 16 anos quando o tio a resgatou. Após os dias ruins que passou na casa da senhora, o tio a  cuidou, deu moradia e a sustentou até conseguir um trabalho. 

“por um prato de comida”

A titular da Delegacia da Mulher, Débora Mafra (PSC), conta que antes de se tornar delegada, presenciou casos de meninas trazidas do interior para estudar na capital, porém trabalhavam por um prato de comida.

“Essas meninas frequentavam à escola, mas não eram tratadas como filhas, como falavam a elas. Essas garotas vivem numa condição análogo de escravo. Hoje, desconheço algum caso”, disse a delegada.

Trabalho infantil no AM 

De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Amazonas, pelo menos 49 mil crianças e adolescentes estão em situação de trabalho infantil, índice que pode chegar a 64 mil, uma vez que os dados do instituto não consideraram o trabalho doméstico e o trabalho de subsistência (autoconsumo, principalmente do interior) como formas de trabalho infantil. 

O Amazonas reduziu o trabalho infantil de 86.165 para 49 mil entre 2004 e 2017

Lei 8.069

Em 1990, surgiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sancionado na forma da Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. O documento garante a proteção integral de crianças e adolescentes, conferida à sociedade, conselhos, municípios, estados, de todo o território nacional. 

Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, a modificação de cenário sobre o trabalho dos adolescentes, acrescenta ela, também contribuiu para que leis criassem formas menos precárias de trabalho para essa população, como a Lei de Aprendizagem, de 2000. A lei elevou a idade mínima para aprendizagem de 12 para 14 anos e determinou que os adolescentes recebam “formação técnico-profissional metódica compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico”.

 

Por Alessandra Aline Martins

 

Foto: Divulgação

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Eric Lima

Criador do Portal Pontual

Mestrado em Saúde, Sociedade e Endemias na área de concentração de Epidemiologia de Agravos e Prevalentes na Amazônia pelo instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/FIOCRUZ), Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Universidade Federal do Pará (UFPA - 2013). Tem experiência em pesquisa na área de Epidemiologia, Saúde Coletiva com ênfase em Saúde Pública, Avaliação de Serviço em Saúde e Saúde Baseada em Evidências, desenvolvendo estudos nos temas: Tuberculose, Resistência aos fármacos, Tuberculose Multirresistente, Coinfecção TB/HIV.

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