Na tentativa de driblar a Receita Federal, entre 2015 e 2021, o ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, de 38 anos, teria feito de tudo para sonegar Imposto de Renda. A informação consta no relatório da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) que embasou o juiz da 3ª Vara Federal Criminal do Rio a decretar a prisão do empresário, de sua mulher e de outras sete pessoas. Para a PF, Glaidson movimentou mais de R$ 38 bilhões em seis anos. Para conseguir ficar impune, os investigadores destacam que ele usava de contas de terceiros para conseguir movimentar a fortuna. Atualmente, ele está preso no Complexo de Gericinó, em Bangu. Já sua mulher, a venezuelana Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, 38, é considerada foragida e está na lista vermelha da Interpol para a extradição. As operações de Glaidson envolveram pelo menos 8.976 pessoas — sendo 6.249 físicas e 2.727 pessoas jurídicas.
De acordo com o MPF, “o esquema criminoso está em franca operação e cresce em proporção geométrica”. A Receita Federal salienta que, “em 2019 tanto a movimentação financeira de Galidson como a da GAS Consultória foram ainda maiores. A GAS que em 2018 movimentou pouco mais de R$ 1 milhão, passou a movimentar em 2019, R$ 477.648.698,03 a crédito e R$ 476.238.943,04 a débito. Já Glaidson passou a movimentar R$ 294.271.823,15 a crédito e R$ 296.417.678,95 a débito”.
O relatório da Receita Federal destaca ainda que, em 2020, “há claros indícios de sonegação fiscal por parte das empresas de Glaidson e de Mirelis: independentemente da forma de tributação, (…) a GAS pagou R$ 587.966,37 tendo uma movimentação financeira de R$ 2.060.334.707,32”, diz o documento que completa: “Há, portanto incompatibilidade entre sua movimentação financeira e o valor arrecado de tributos pela GAS”.
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A Polícia Federal suspeita de movimentação de recursos em benefício de terceiros e possível sonegação fiscal. O que eles consideram como uma tentativa de drible a Receita Federal. “Considerando que não foram encontradas justificativas nem fundamentos econômicos ou legais para a movimentação financeira analisada, comunicamos pela possibilidade de configurar indícios do crime de lavagem de dinheiro ou com ele relacionar-se”.
Pelas contas de Mirelis passaram à margem da Receita mais de R$ 470 milhões em apenas dois anos, segundo a investigação. A Polícia Federal quer saber como o casal movimentou tanto dinheiro.
No documento que embasou o pedido de prisão do casal, assinado pelo procurador da república Douglas Santos Araújo e pelo delegado da PF Guilhermo de Paulo Machado Catramby, aponta para “numerosos os elementos que demonstram que Galidson dos Santos, junto com sua companheira Mirelis Zerpa, estão liderando estruturada organização criminosa que movimenta bilhões de reais tanto no sistema financeiro oficial, como também em criptoativos”.
E o documento sustenta ainda que um relatório produzido pela Receita Federal após o afastamento do sigilo fiscal mostra, “de maneira cabal, que a dupla está fazendo uso de extensa rede de operadores para movimentar enormes quantidades de ativos, denotando, à primeira vista, possíveis delitos contra o sistema financeiro nacional, lavagem internacional de ativos, sonegação fiscal e organização criminosa”. Os investigadores destacam ainda que, ambos “constituíram um gigantesco esquema de captação de recursos de terceiros, mediante oferta de contratos de investimento coletivo à margem de qualquer autorização ou registro perante a CVM (Comissão de Valores Mobiliários)”.
Para se ter ideia, de acordo com a investigação, entre R$ 2018 e 2020 passaram pelas contas da MYD Zerpa Tecnologia Eireli, empresa de Mirelis, R$ 477 milhões. Ela está na lista dos 27 maiores destinatários de recursos das contas bancárias do acusado e de sua empresa, sediada na Região dos Lagos (RJ), que receberam cerca de R$ 2,3 bilhões nos dois anos.
Ao todo, afirma o Relatório de Inteligência Financeira (RIF), ao qual O GLOBO teve acesso, as operações de Glaidson envolveram pelo menos 8.976 pessoas — sendo 6.249 físicas e 2.727 pessoas jurídicas. A partir de levantamento da Receita Federal, as 27 discriminadas são só as que, no período analisado, somaram aportes acima de R$ 20 milhões.

