Manaus | 6 de maio, 2020 | Quarta-feira
O ator Lima Duarte, 90, relembrou os momentos difíceis da ditadura militar no Brasil (1964-1985) em vídeo que fala sobre a morte do amigo Flávio Migliaccio, encontrado morto em seu sítio em Rio Bonito (RJ) na segunda (4).
Nossa solidariedade ao ator Lima Duarte, que gravou esse depoimento forte ao amigo, que recentemente nos deixou, Flavio Migliacci. Nós não lavaremos as mãos e seguiremos aqui lutando para construir uma saída em que a humanidade esteja em primeiro lugar. E #DitaduraNuncaMais pic.twitter.com/wHYmEFfAkD
— Fernanda Melchionna (@fernandapsol) May 6, 2020
“Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais. Eu não tive a coragem que você teve.”
No vídeo de quase cinco minutos, que foi divulgado na terça-feira (5), Duarte se mostra emocionado. “Eu te entendo, Migliaccio, porque eu, como você, sou do Teatro de Arena, com Paulo José, Chico de Assis, com o [Gianfrancesco] Guarnieri. Foi lá que aprendemos com o [Augusto] Boal que era preciso, era urgente que se pusesse o brasileiro em cena.”
Lima Duarte complementa que eles conseguiram cumprir essa missão. “A alma brasileira, você foi um mestre. Você conseguiu colocar, e eu também. Colocamos em cena o homem brasileiro. Foi linda essa viagem (…)”, afirmou.
O ator também cita uma fala do personagem Pedro Jáqueras, na peça “Os Fuzis da Senhora Carrar” (1937), de Bertolt Brecht, que aborda a luta dos povos em defesa da democracia e contra o fascismo: “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”.
A morte de Migliaccio foi confirmada como suicídio por seu único filho, Marcelo, segundo quem o pai estava em depressão profunda desde o ano passado. O ator deixou cartas à família. Migliaccio nasceu no bairro do Brás, no centro de São Paulo, numa família de 17 irmãos -uma delas, Dirce Migliaccio, também atriz.
Marcelo afirmou que irá entrar com processo contra o estado do Rio de Janeiro por divulgar imagens do corpo do ator. As fotos foram tiradas por dois agentes da polícia militar e divulgadas na web pelos autores, segundo o filho do ator.
“Quanto aos policiais militares que fotografaram com celular a cena mórbida no quarto do sítio e colocaram a imagem em redes sociais, o estado do Rio de Janeiro responderá judicialmente por ter pessoas assim a representá-lo”, escreveu.

